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Capítulo 49 – OS COMPROVANTES DA MARTA (2ª parte)
- Todo mundo da Igreja recebe esse relatório? – perguntou o Pereira.
- Não, apenas os dizimistas. – respondeu a Marta.
- E como vocês sabem que o consta aí é verdadeiro?
- Temos duas maneiras de verificar – disse ela – a primeira é o número do dizimista, cada dizimista tem um numero e confere se a quantia que doou esta corretamente anotada no relatório. A segunda maneira é, verificar as notas fiscais, que estão arquivadas e a dispor dos dizimistas.
- Você já verificou essas tais notas?
- Sim, só uma vez, para ver como era.
- E bateu?
- Hehehe! Bateu sim!
- E porque eles não botam nome ao invés de número?
- Para não incentivar o orgulho entre os fiéis, o dízimo é um assunto pessoal, é dez por cento de tudo que a gente ganha, e cada pessoa tem um salário diferente. Do jeito que eles fazem, a gente não fica sabendo quem é quem. Mas com esse tipo de controle eles podem prestar contas de tudo, sem ferir nosso direito ao anonimato.
- E aí, agora que você viu você acredita? – disse eu?
- Nem assim eu acredito. – respondeu o Pereira.
- Esse aí é pior que o São Tomé! – eu disse.
- É mesmo! – arrematou a Marta.
Escrito por Teofilo às 13h06
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Capítulo 48 – OS COMPROVANTES DA MARTA
"Não podemos ensinar nada às pessoas; só podemos ajudá-las a descobrir o que já está dentro delas.” Galileu Galilei
O Pereira deu um pulo e correu até o banheiro para lavar o rosto; enquanto eu abria a porta para a Marta, ele embarafustou pelo quarto para trocar de camisa.
A Marta, como sempre, estava esfuziante e exibia um sorriso maravilhoso.
Mal nos cumprimentamos e o Pereira já estava de volta, pespegou-lhe um beijo e enlaçou-a pelos ombros, já com ares de proprietário.
- Estávamos conversando sobre a Igreja do Hobbes – eu disse, numa tentativa de retornar ao assunto anterior.
- Ah é? São esses os assuntos que interessam aos agnósticos e ateus? – disse a Marta com ares sarcásticos.
- Hehehehe! Sorriu amarelo o Pereira.
- Estávamos falando que a Igreja do Hobbes afirma prestar contas dos dízimos angariados. Eles falam que mensalmente enviam relatórios aos fiéis dizimistas informando para onde vai o dinheiro deles. – disse eu.
- É verdade, disse ela, eu mesma recebo esse relatório todos os meses porque faço o meu dízimo direitinho. Vocês querem ver?
- QUEREMOS! – quase que gritamos os dois ao mesmo tempo.
Ela procurou na bolsa e tirou de lá uma folha de papel comum, onde estava escrito mais ou menos o seguinte:
Havia um logotipo da Igreja e do lado do logotipo estava escrito: Igreja da Ciência Divina, seguiam-se 3 endereços, na seguinte ordem: http://www.cienciadivina.com.br cienciadivina@cienciadivina.com.br Caixa Postal 121 – CEP 18010-971 – Sorocaba – SP
Em seguida, estava escrito:
PRESTAÇÃO DE CONTAS DÍZIMOS RECEBIDOS – RELATÓRIO 15
Depois tinha um texto chamado INFORMAÇÕES IMPORTANTES, seguido de um quadrilátero onde consta o número do dizimista e o valor que doou.
Seguem-se o total dos valores arrecadados e depois há uma tabela com o seguinte título:
DESPESAS DA IGREJA E OBRAS SOCIAIS CUSTEADAS POR ESTES DÍZIMOS.
Segue-se uma relação de despesas e os valores respectivos, depois é puxado um total seguido de uma anotação sobre saldo a transportar.
Escrito por Teofilo às 13h05
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Capítulo 47 – UMA VISITA AO SITE DA IGREJA (continuação)
- Como pode ver – disse eu – eles estão tentando ajudar a comunidade de uma forma construtiva.
- Ajudar nada. Religiões não ajudam ninguém apenas extorquem do povo e locupletam os pastores.
- Bom, eles dizem que não são uma religião, são uma Igreja.
- É tudo a mesma merda!
- Mas, você não acha que é uma boa, esse negócio de implantar creches e escolas para famílias carentes e supermercados e farmácias vendendo alimentos e medicamentos a preços de custo?
- Que é bom é, e o povo bem que está precisando, mas nunca vi nenhuma Igreja fazer isso. Com a desculpa de divulgar a palavra eles acabam é pondo o dinheiro no bolso dos pastores.
- Bom, nessa Igreja eles dizem que os ministros não tocam no dízimo, ele é todo empregado para os propósitos sociais da Igreja.
- E quem é que pode garantir? Quem é que vai saber?
- Eles prestam contas dos dízimos angariados. Mensalmente enviam relatórios aos fiéis dizimistas informando para onde vai o dinheiro deles.
- Isso tudo é balela, eles prestam contas de uma parte do dinheiro, o resto eles enfurnam em algum lugar.
- Pelo que vi lá, todo o dinheiro angariado é declarado e cada despesa é apresentada aos fiéis acompanhada de notas fiscais.
- Não acredito nisso, nenhuma religião é honesta, não existem essas coisas.
- Por que você não pergunta para a Marta? Ela pertence à Igreja do Hobbes.
- Pode crer que vou perguntar sim. Vou por tudo isso em pratos limpos.
- Então você pode fazer isso agora mesmo, ela está chegando aí.
Eu havia visto a Marta, pela janela, atravessando a rua, e caminhando em direção à casa.
Escrito por Teofilo às 17h19
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Capítulo 46 – UMA VISITA AO SITE DA IGREJA
"Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz."
Platão
Para consolá-lo, tirei de minha pasta umas folhas de anotações e mostrei para ele.
- Lembra que você me passou o link de uma das páginas do site da Igreja do Hobbes, que a Marta lhe recomendou? Você acessou essa página?
- Não, ainda não. Não sei onde foi parar a anotação do link.
- Estou com o endereço que você me deu, aqui ó. E apontei para uma anotação em minha agenda:
http://www.cienciadivina.com.br/sonhos.htm
- E aí, você chegou a ir até lá?
- Fui sim e anotei o que pareceu mais interessante. Pelo que entendi essa igreja adota procedimentos sociais em relação a seus fiéis.
- Procedimentos sociais? O que você quer dizer com isso? - disse o Pereira, com um ar desconfiado.
- Veja estas anotações que fiz, a partir do texto que está lá no site deles.
Entreguei minhas anotações para o Pereira e esperei enquanto ele lia:
Nossos Sonhos:
"Por seus frutos os conhecereis. Porventura, colhem-se uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos? Assim, toda árvore boa produz bons frutos, e toda árvore má produz frutos maus." Mt 7.16,17
São Nossos Sonhos e estão sendo implantadas aos pouquinhos, diversas iniciativas de ordem social, que buscam atender às necessidades mais prementes de nosso povo.
Com o tempo e com o aumento dos recursos disponíveis, pretendemos:
a) Implantar creches para atendimento de crianças filhas de mães que necessitam trabalhar e não dispõem de recursos para cuidar dos filhos nessas ocasiões;
b) Implantar instituições de ensino que acompanhem o desenvolvimento do aluno, desde o jardim da infância até a Universidade.
c) Implantar escolas de ensino profissionalizante para crianças carentes, ensinando profissões básicas, como pedreiro, pintor, encanador e eletricista;
d) Implantar farmácias que atendam aos membros de nossa Igreja, vendendo os medicamentos a preço de custo, ou pouco mais, apenas para cobrir as despesas;
e) Implantar supermercados que vendam gêneros alimentícios para os membros de nossa Igreja com a menor margem de lucro possível, apenas para atender as despesas.
f) Implantar locais de culto em diferentes regiões de nosso Brasil e do mundo, para reuniões semanais onde serão revistos os textos de nossos estudos (ESCP) e onde os membros de nossa Igreja terão a chance de se conhecerem e conviverem uns com os outros.
Escrito por Teofilo às 17h18
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Capítulo 45 – UMA VISITA COMOVENTE (última parte)
- O pior é que quando os botei pra fora, reparei no rosto da senhora. Ela estava me olhando com um olhar de profunda dor. Seus olhos exprimiam uma sensação de fracasso, de perda, de decepção. Ela me passava uma dor quase insuportável, praticamente ela estava suplicando com os olhos. Era óbvio que ela sofria assim porque estava sinceramente interessada em me salvar. Quando os botei pra fora e bati a porta na cara deles, todos aqueles sentimentos que ela expressava, surgiram em mim e me recordei de minha mãe e do quanto ela se esforçou para me reconduzir ao caminho da fé, pouco antes de morrer.
- E mesmo assim você a enxotou e bateu a porta na cara dela.
- Pois é. O que foi que eu fiz? Aquela senhora, tão gentil, humilde e debilitada, dedicou várias horas de sua vida em seus esforços para me salvar e nada fiz para agradecer sua abnegação, sua dedicação a tentar salvar um estranho que ela nem conhece. Eu briguei ferozmente com ela. Eu a humilhei diante de pessoas da igreja dela que ela deve amar e respeitar. Chutei suas crenças, esmaguei sua vida inocente e ingênua. Cuspi no amor que ela quis compartilhar comigo. E a lancei fora em uma chuva inclemente, sem o mínimo de consideração.
- É, isso eu vi.
Parei de falar porque o Pereira voltou a chorar por mais algum tempo. Limitei-me a abraçá-lo pelos ombros e a dar-lhe umas palmadinhas nas costas que não serviram de muito consolo.
Escrito por Teofilo às 18h30
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Capítulo 44 – UMA VISITA COMOVENTE (3ª parte)
- E trouxe o tal cara mais experiente?
- Trouxe. Não passava de um garotão, daqueles de Bíblia embaixo do sovaco. Bem intencionado, mas não dava nem pro começo. Ela apresentou o moleque e parecia muito orgulhosa dele, contou-me que ele acabara de se formar na faculdade, e que iria ajudá-la a salvar a minha alma. Praticamente pulei na garganta dele. Começamos a debater e eu o massacrei com meus argumentos sem lhe dar tempo nem para respirar. Ele ficou como uma laranja chupada depois que se cospe o bagaço.
- Você acabou com ele!
- Eu o transformei em subnitrato de pó de merda!
- Nossa, deixou ele mais por baixo do que o cocô do cachorro do bandido!
- Isso mesmo! Acabei com a raça dele.
- E?
- E você não vai acreditar! A velhinha me olhou com aqueles seus olhinhos miúdos e brilhantes, azuis como duas contas e me pediu, praticamente me implorou, para voltar hoje, trazendo um ancião, um dos mais velhos membros de sua igreja...
- E você naturalmente, recusou.
- Pois é deveria ter recusado, era a coisa mais simples a fazer. Mas... olhei para aquele corpinho frágil e alquebrado, para aquela carinha idosa e murcha, iluminada por aqueles olhinhos miúdos e cheios de esperança, e lembrei de minha mãe, não pude recusar.
- Cê tá maluco!
- Mas eu fiz uma sacanagem.
- Sacanagem?!
- É, marquei no horário em que estaríamos lá no sebo para nosso encontro com a Marta e o indiano.
- Então ela veio mais cedo!
- Veio, ela alegou que o coroa que veio com ela tinha um compromisso mais tarde.
- E nem a chuva os impediu de virem.
- É, ela ficou toda molhada coitadinha, porque demorei para abrir a porta, pensando que era você.
- Ah é, é? Não tem nenhuma consideração por mim, mesmo.
- Bom pensei que fosse você e que estivesse com um guarda chuva.
- E ela não estava com guarda chuva?
- Não coitadinha, ficou completamente molhada, tive que emprestar a ela uma toalha para que se enxugasse. E mesmo depois disso, ela não parava de espirrar, acho que se gripou. Com toda essa chuva e ela não deixou de vir, na esperança de me salvar. Ela me apresentou o senhor que veio com ela, que é um homem simples, mas que faz parte da Igreja dela há muito tempo. Não me deu trabalho nenhum, era um homem primário, ignorante, nem sabia argumentar, acabei com ele com meia dúzia de palavras.
- Você está disposto hoje!
Escrito por Teofilo às 18h27
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Capítulo 43 – UMA VISITA COMOVENTE (2ª parte)
- Você viu aquela velhinha que saiu daqui?
- Vi. Vi de longe, mas vi sim.
- Pois é, no começo da semana passada ela bateu aqui na minha porta e disse que tinha vindo para tentar salvar a minha alma.
- A sua alma?! Hahahaha! Ela bateu na porta errada!
- Normalmente eu teria sentado a porta na cara dela, você sabe como detesto crentes, mas aquele tinha sido o dia em que nós tínhamos nos encontrado com o Hobbes lá no Sebo e...
- ... e você tinha conhecido a Marta.
- É! Eu acho que eu estava meio de coração mole e vendo a fragilidade dela, resolvi deixa-la entrar.
- Que coração mole, coisa nenhuma, miolo mole isso sim...
- Seja como for..., eu pensei, uma velhinha frágil dessa, não vai me dar trabalho para despachar. Pra falar a verdade, eu me senti como um lobo diante de uma ovelhinha, não daria nem para o buraco de um dente, comecei até a babar no tapete...
- É, você viu que ia jantar ela fácil, fácil...
- Aí que está, foi nessa que me enganei. No começo eu deixei ela derramar a sua história, aquela mesma lenga-lenga de sempre. Que Jesus morreu para me salvar, que o papai-do-céu nos ama e coisa e tal. Comecei devagarinho a envolvê-la em minha conversa de cerca-lourenço, como uma aranha desfiando sua teia em volta de uma mosca incauta. Em poucos minutos ela começou a ficar confusa e a se perder em seus argumentos.
- Ééééééééé! Não é todo mundo que sabe argumentar como o Hobbes!
- Enfim. Para encurtar a história: apesar de um pouco confusa, essa senhora continuou a argumentar, mantendo uma disposição incomum e percebi que ao invés de se sentir derrotada ela ainda estava com uma chama viva dentro do coração e seus olhos azuis brilhavam cheios de esperança. Ela me contou um pouco de sua vida. Uma vida cheia de luta, muita dor, muito sofrimento e muita esperança e também me contou que agora que estava se dedicando à tarefa de salvar as almas das pessoas, estava tendo uma nova luz em sua existência, um novo propósito, um novo caminho a percorrer. Me senti um canalha tentando destruí-la daquela forma mas ela mesma me apresentou uma saída. Toda animada me perguntou se podia voltar no dia seguinte trazendo alguém mais experiente para responder minhas perguntas. Para me livrar dela, é claro que concordei, torcendo para que quando ela voltasse, eu não estivesse em casa.
- Hahahahaha! Seu nojento!
- Bom, ela voltou e eu estava em casa. Por mais dez minutos e ela não me encontraria pois estava prestes a sair.
Escrito por Teofilo às 18h25
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Capítulo 42 – UMA VISITA COMOVENTE
Na quinta feira seguinte, passei pela casa do Pereira, para irmos juntos à tal reunião com o indiano, lá no sebo do Boxexas.
Quando viro a esquina da rua da casa dele, debaixo de uma chuva torrencial, vejo, de longe, uma senhora idosa saindo da casa dele acompanhada por um senhor que parecia estar muito bravo.
Ouvi de longe um bate boca entre o Pereira e esse senhor, mas não deu para escutar o que diziam, o Pereira bateu violentamente a porta da casa e eles entraram em um carro e foram embora.
Quando cheguei pingando à casa, toquei a campainha e o Pereira abriu a porta de sopetão, com uma grande carranca, mas pude perceber que estivera chorando.
- Ah, é você! – disse ele, afastando-se de mim, para que eu não percebesse que ele estivera chorando.
- O que houve? - perguntei.
- Nada não, pensei que eram umas pessoas que acabaram de sair daqui.
- Sei, eu vi de longe um casal saindo, o que houve? Por que você está chorando?
Primeiro ele negou: - Não estou chorando coisa nenhuma!
Mas se retirou rápido para o banheiro e assoou o nariz com força, parecia a buzina de um velho automóvel: - FÓÓÓÓÓÓMM!
Logo em seguida ele voltou para a sala, com um monte de papel higiênico nas mãos e soluçando entrecortadamente.
- O que aconteceu? – perguntei já meio apreensivo.
- Nada não, eu é que sou uma besta de um sentimental idiota.
Falou isso e continuou a chorar, as lágrimas saíam aos borbotões.
Ele sentou-se, afundou a cara na montanha de papel em suas mãos e continuou a soluçar.
Fui até a cozinha, peguei um copo de água e estendi para ele:
- Beba isto e me conte tudo, desabafando vai se sentir melhor.
Ele sorveu a água em dois goles, ajeitou-se um pouco, suspirou, recostou-se para trás na cadeira, terminou de limpar o rosto e me contou o que aconteceu.
Escrito por Teofilo às 18h23
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Capítulo 41 – O TELEFONEMA DO PEREIRA (continuação)
- Ok, quando eu puder, dou uma olhada.
- Ah, ia me esquecendo, anota um compromisso aí.
- Compromisso?
- É, a Marta vai levar um Indiano, lá no sebo, pra trocar umas idéias sobre reencarnação. Ela disse que os indianos vêem a reencarnação de um jeito diferente dos espíritas. Marcamos para a quinta feira próxima, às dez da manhã. Tudo bem pra você?
- Bom, tudo bem, mas por que eu preciso ir? Não me interesso por esse assunto.
- Bom é que eu prometi que iria, mas eu sei que os indianos falam um inglês horrível e o seu inglês é melhor que o meu... Aí, eu pensei que você poderia aparecer e dar uma força.
- Ta bom, se você faz questão, mas não seria melhor marcar em outro lugar?
- Pois é eu também pensei assim, mas ela quer que seja no sebo para ver se consegue apresenta-lo ao Hobbes.
- E ele entende inglês?
- É claro que sim, ela me disse que o ministro é irlandês.
- Então tá. Vou aparecer sim. Mas... e a Marta, gostou dela?
- Muito cara... é o tipo de mulher que sempre me agradou. Mas, sabe de uma coisa?
- O quê?
- Ela disse que podemos continuar nos vendo, mas com uma condição...
- Condição? Que condição?
- Que eu prometa não me apaixonar por ela.
- Não entendi.
- Ela disse que, se eu me apaixonar por ela, não vai querer mais me ver.
- Continuo sem entender...
- Eu também não entendi nada, mas desconversei, talvez ela não queira se envolver ou coisa assim.
- Opa! A coisa ta pegando, vocês já avançaram o sinal?
- Que sinal, que nada cara, nem sequer nos beijamos, apenas conversamos muito e eu pude ver que ela é uma garota legal.
- Valeu, vou torcer para dar certo.
- Eu também.
- A gente se fala.
- Ta ok, a gente se fala.
- Até mais.
- Até.
Escrito por Teofilo às 11h56
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Capítulo 40 – O TELEFONEMA DO PEREIRA
Ao fim da tarde o Pereira ligou para mim para comentar sobre a Marta:
- Você sabia, que ela já conhecia o Hobbes?
- Não ela não me falou nada a respeito.
- Quando eu dei carona pra ela, ela estava indo prestar uma espécie de serviço voluntário numa creche. Pelo que ela me falou ela faz muito disso. Ela pertence à tal Igreja do ministro Hobbes.
- Ué, ela não tinha dito que era espírita?
- Pois é, pelo que me disse, a Igreja desse cara é diferente das outras, eles aceitam pessoas de qualquer religião.
- Mas... se a pessoa já tem uma religião, para que entrar na Igreja dele?
- Bom, eu também não entendi muito direito esse negócio, mas ela me explicou que a Igreja dele é bem diferente das outras, que os pastores não recebem dinheiro do dízimo mesmo.
- Grande coisa.
- E que eles mantém muitas obras sociais...
- E daí, é isso que fazem as igrejas, mesmo.
- Pelo que ela me disse, eles fazem mais do que as outras igrejas, ela esteve me explicando que na Igreja dele, há muitas atividades sociais; ao contrário dos outros crentes, eles não se contentam em ser salvos, querem ajudar a sociedade. Ela recomendou que eu lesse uma página do site deles, intitulada “nossos sonhos”.
- E você leu?
- Ainda não, meu computador deu pau, vou ter que ir a um cibercafé.
- Quer dizer que você vai mesmo perder tempo examinando esse troço?
- Olha não é pelo Hobbes não, é pela Marta que eu quero fazer isso. Acho ela uma garota legal e se eu tirar esse negócio da frente talvez a gente consiga conversar sobre outros assuntos.
- Tá legal, tá legal, me passa o site então, que eu vou dar uma olhada.
- Péra um pouco que eu anotei em algum lugar. Ah. Achei, anota aí.
- Diga.
- http://www.cienciadivina.com.br/sonhos.htm
Escrito por Teofilo às 11h54
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Capítulo 39 – UMA CONVERSA INFORMAL (final)
- Um sistema de emagrecimento? É a Herbalife?
- Não, não. Aparteei. Não tem nada que ficar tomando pozinhos, pílulas e shakes, trata-se de uma sistema de emagrecimento em que você come de tudo e emagrece, uma espécie de reeducação alimentar. Como você come de tudo, as pessoas nem percebem que você está de dieta.
- E como se chama?
- Emagrecer para a vida. Você emagrece de uma vez por todas, sem voltar a engordar.
- Legal. E sendo virtual, você tem um site para vender esse tipo de coisa?
- Ora, você não precisa disso, se emagrecer um grama vai perder o seu charme, você está linda como está...
E de fato, a Marta era uma mulher muito bonita, vistosa, do tipo que chama a atenção; até já havia observado o Pereira com uns olhos compridos para o lado dela... mas imaginei que ela tivesse feito essa pergunta na tentativa de vender o trabalho de webdesigner dela, mas na verdade ela nem mencionou seu trabalho e continuou:
- Não, não é para mim é para o meu pai que é diabético e está com excesso de peso.
- Ah bom! Então tá, fale para o seu pai entrar no meu site e pedir o sistema, ele vai emagrecer bem rápido, sem voltar a engordar.
- E qual é o site?
- www.emagrecerparaavida.com.br
- Pô, agora fiquei com ciúmes, seu pai não está precisando de cursos e livros não? - disse o Pereira.
- Hehehehe! Se ele não estiver eu mesma compro, dá o endereço do seu site também.
- www.portaldaserenidade.com.br
Ela tirou um bloquinho da bolsa e anotou tudo, com uma letra muito formosa.
Conversamos mais um pouco e ela disse que tinha que ir embora, o Pereira perguntou para onde ela estava indo e ofereceu-lhe uma carona, nos despedimos e enquanto eu me dirigi ao supermercado para comprar algumas coisas o Pereira e ela foram se afastando em direção ao estacionamento.
Fiquei a observá-los de longe... fazia tempo que eu não via o Pereira tão animado, ambos estavam muito sorridentes...
Escrito por Teofilo às 15h12
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Capítulo 38 – UMA CONVERSA INFORMAL (2)
Quando ele retornou, ela foi a primeira a quebrar o silêncio:
- E o Sr. Trabalha com que, Sr. Pereira?
- Não me chama de senhor não, o senhor tá no céu!
- Hahahahaha! - disse eu - Ué, você não acredita em Deus nem nada.
- Bom. - disse o Pereira corando levemente - È só um jeito de falar...
- Sei, sou ateu graças a Deus, né? - arrematei eu, para arrelia-lo...
Mas a Marta cortou o assunto com muito jeito e um sorriso fascinante.
- Tá bom, não o chamo de senhor então, mas não gosto de chamar as pessoas pelo sobrenome...
- Sou o Carlos Alberto, Carlos Alberto Pereira...
- Oi Carlos, no que você trabalha?
- Sou o representante de uma empresa virtual que vende cursos, livros e CD´s.
- É mesmo! Que interessante, e que empresa é essa?
- A Unicefa. Na realidade é uma Universidade livre, uma empresa virtual chamada Universidade Livre de Ciências, Filosofia e Artes do Brasil.
- Uma empresa virtual? Como assim?
- Bem, é uma empresa que funciona através da internet, eles cedem a representação de seus produtos e seus representantes abrem sites vendendo esses produtos na base de comissões sobre as vendas.
- Pô que legal, e vale a pena mesmo? Dá pra ganhar um dinheirinho?
- Dá sim, aliás, não sou só eu que trabalho virtualmente, o meu amigo Teófilo aqui, também representa uma empresa virtual.
- É mesmo? E vocês representam a mesma empresa?
- Não. Disse o Pereira. Eu represento a Unicefa e o Teófilo representa um sistema de emagrecimento.
Escrito por Teofilo às 15h11
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Capítulo 37 – UMA CONVERSA INFORMAL.
Saímos do Sebo, eu e a Marta, conversávamos banalidades enquanto ela me dava seu cartão de webdesigner.
Dobramos a esquina em direção ao Shopping e encontramos o Pereira que estava de pé, recostado no muro e com cara de poucos amigos.
- Ora viva! - disse eu - Desta vez você não desapareceu!
- É que eu não agüento ficar ouvindo disparates!
- Bom, então por que não vamos tomar um café no Shopping? Você nos acompanha Marta? Perguntei.
- Está bem. - ela concordou - Mas não posso me demorar muito.
Caminhamos até a praça de alimentação do Shopping a medida em que o Pereira foi desfiando suas jeremiadas a respeito do pastor Hobbes e seu comportamento impertinente, no entremeio de nossas risadas.
Sentamo-nos próximos ao piscinão decorativo que bordeja a área do Supermercado e enquanto o Pereira foi buscar um café para ele, um refrigerante para mim e um suco de laranja para a Marta, comentei com ela o que havia acontecido com a filha dele e como ele era um homem de fé antes de se tornar ateu.
O último ano havia sido especialmente doloroso para o Pereira devido ao falecimento de sua esposa, agora viúvo, ele estava absolutamente só no mundo, exceto por um irmão seu que atualmente vivia em Maceió.
Talvez essa sucessão de acontecimentos esmagadores tenham contribuído para torná-lo tão avesso às questões de Deus e da religiosidade.
A Marta, num lampejo de bom senso, sugeriu que evitássemos falar sobre assuntos religiosos, para não perturbá-lo, mas a coisa não deu muito certo não, como veremos...
Escrito por Teofilo às 15h07
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Capítulo 36 – A HISTÓRIA DO BARCO QUE NAUFRAGOU (continuação 5)
Houve um silêncio entre nós que foi interrompido pelo Cristiano:
- A religião católica certamente matou mais, aleijou mais que o nazismo; é só consultar os números que a história preservou.
Acho que, tentando pôr panos quentes nessa conversa que estava se tornando exaltada, o Sr. Hobbes disse:
- E mesmo assim, Deus, em sua infinita sabedoria, não a destruiu. E por que não o fez? Porque não foi Ele quem a criou, foram os seres humanos, falhos e falíveis...
Mas a Marta não deixou a bola cair e finalizou por ele:
- ... A criação dessa religião e de outros desatinos humanos é obra do livre-arbítrio mal utilizado.
O ministro Hobbes retomou:
- E Deus nos respeitou até nisso, permitiu que usássemos de nosso livre-arbítrio e continuou a nos amar e a nos respeitar. Não é que Ele nos tenha abandonado; muito antes pelo contrário. Ele estabeleceu leis perfeitas e nós mesmos fazemos a escolha de nos punirmos, quando vamos contra essas leis perfeitas. A Segunda Guerra Mundial e suas conseqüências nada mais são do que patéticas tentativas humanas de contrariar essas leis. A semeadura é livre, mas a colheita é inevitável.
Sorrindo a Marta disse:
- O Chico Xavier costumava dizer isso!
Foi nesse instante que percebi que o Pereira não estava mais lá.
Fiquei tão absorto nas argumentações que perdi de vista o meu amigo e ele se mandou. Acho que eram argumentos muito fortes para ele, ou então foi a inferioridade numérica, já que o caldo engrossou...
O ministro Hobbes me interpelou:
- É verdade o que ele falou? Você deu um curso de neurolingüística em Belém e trabalhou de graça, o cara não o pagou?
- Sim, é verdade - eu disse.
- E havia mesmo mais de 800 alunos?
- Oitocentos e trinta e poucos...
- Então esse cara matou a galinha dos ovos de ouro!
Sorri e despedimo-nos, apertamo-nos as mãos e a Marta me deu seu cartão, ela trabalhava com a internet, era webdesigner.
Escrito por Teofilo às 11h41
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Capítulo 35 – A HISTÓRIA DO BARCO QUE NAUFRAGOU (continuação 4)
E o Hobbes terminou a explicação:
- Ora, nos campos de concentração não houve triunfo do mal; houve sim, mau uso do livre-arbítrio, que é o maior dom que Deus nos deu. E respeitar esse mau uso, permitindo que cresçamos, ou não, com a experiência, é uma grande prova de amor e de respeito. Crescer, ser adulto, não resulta de admoestações e castigos na infância. Resulta de adquirirmos discernimento através das provações da vida e aprendermos a fazer melhores escolhas, ou então nunca nos faremos adultos, tenhamos a idade que tivermos.
Foi nesse momento que o Cristiano se meteu na conversa e disse:
- É fato histórico que a religião católica compactuou com o nazismo na figura de seu líder, o Papa Pio XII. Com a internet esses fatos, registrados historicamente, estão ao dispor do grande público, só não vê quem não quer ver.
E a Marta complementou:
- Os nomes dos cardeais de Roma que facilitaram a fuga dos líderes da Gestapo para a América Latina pertencem hoje ao domínio público. Mil arbitrariedades foram perpetradas pela religião católica, inclusive a anuência para que houvesse a escravidão, ao declararem que os negros não tinham alma.
O Cristiano aparteou:
- Se Deus escolhesse destruir o mal, certamente teria escolhido destruir essa religião, muito antes de destruir o nazismo, que foi um mal menor comparado a ela.
- Epa – eu me meti – não vamos exagerar!
Mas o Cristiano tinha engrenado um discurso e não se deixou interromper:
- A religião católica dizimou civilizações inteiras, negros e índios, principalmente, que tinham meios mais restritos para se defender. Criou o genocídio e se sentiu perfeitamente justificada em fazer o que fez, através da inquisição, das cruzadas e outros males...
E a Marta continuou:
- Não sei de nenhum papa que tenha questionado isso ou perguntado onde estava Deus, quando essas coisas foram cometidas.
Escrito por Teofilo às 11h39
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